
Nunca mais esqueci uma série imagens - seria uma exposição? - da nossa natureza microscópica comparadas com o universo macroscópico lá do céu. As formas se repetiam. Como é possível? Não dava para distinguir o que era micro do que era macro.

Aprendi com amigos fotógrafos um truque muito bom para fazer imagens amadoras parecerem sérias: clicar de perto coisas que você está acostumado a ver de longe e fotografar de muito perto aquilo que sempre está ao alcance dos olhos. Usei a dica nestas fotos de plantas prosaicas, que fui encontrando ao longo da viagem. Saí arranhada da bromélia, mas consegui ver o cálice tão de perto que até parece outra planta.
Que eu gosto de fotografar coisas estranhas, você provavelmente já sabe. Tenho uma coleção de fotos de portas e janelas e não posso ver um matinho se infiltrando por um vão no muro que já corro buscar a máquina. Ultimamente, tenho tido uma quedinha por pedras. Pedriscos caídos ao longo do asfalto. Pedras em formatos estranhos. E, claro, plantas nascendo sobre rochas, mas aí já incorro no vício antigo. Num passeio espetacular de barco em Arraial do Cabo (RJ), fotografei alguns rochedos esplêndidos, como este da foto abaixo.

Agora, imagine a minha surpresa ao abrir a foto no computador e descobrir que ela veio com um brinde – um biguá e seu felpudo filhote (que eu apelidei de Vilmar)! Os biguás (Phalacrocorax brasilianus) são aves insulares que realizam uma proeza de deixar muita gaivota de bico caído: eles conseguem submergir no mar atrás de peixes, o que explica seu outro nome popular, mergulhão.
Acabo de voltar de uma daquelas viagens de lavar a alma, perfeitas para a contemplação. Eu, que falo como se as palavras fossem acabar, adoro períodos assim – de silêncio, de contar as horas pelas sombras, de comer fruta no pé e ver o tempo nas nuvens.
Boas viagens são tão intensas fora quanto dentro da gente. E nem é preciso ir muito longe para ter uma grande experiência. Duvida? Pois eu já vi muita gente desperdiçar um por-do-sol de calendário só porque passou a tarde em frente à TV. Ou estar em um lugar paradisíaco num momento infernal da vida.
Se você está de férias, não tenha medo do desconhecido. A comida é esquisita? O sotaque soa estranho? O lugar cheira diferente de sua casa? Apenas sinta. Observe. Se deixe levar. Se você não pode (ou não quis) viajar, faça um passeio por sua própria cidade com olhos de turista. Olhe para cima, procure ângulos pouco usuais. Repare no detalhe da fachada de um prédio. Experimente um novo sabor. Ouça os passarinhos (eles estão por todo o canto!).
Tire os olhos do chão e descubra seu próprio cartão-postal!

PS: Fiquei um tempão fotografando esta garotinha entretida com uma pá e um baldinho nas areias de Búzios (RJ). Apesar de ela estar alheia à beleza em redor, tenho certeza de que curtiu sua viagem interior.

Apocalipse. Fim dos tempos. Revolta da natureza. Tenho ouvido muito as pessoas comentarem sobre a maneira violenta como o planeta revida às agressões que vem sentindo há milhões de anos. Os culpados somos nós: do rapaz que joga latinha pela janela do carro à criança que escova os dentes com a torneira aberta, cada ser humano terá sua quota de ecoexpiação.
Esqueça aquela imagem de passarinhos namorando ou esvoaçando alegremente na primavera: na minha varanda, não tem nada desse negócio de pombinha branca da paz. Desde que as maritacas resolveram bater ponto diariamente à partir das 6h, o que mais vejo são os bicudos brigando.
Num desses perrengues, três maritacas monopolizaram a latinha de sementes de girassol e não deixavam uma quarta nem chegar perto. A loser tentava por um lado, tentava por outro, mas era sempre rechaçada. Resolvi bolar um comedouro maior, de preferência raso e bem comprido para abrigar garras e bicos afiados bem distantes uns dos outros.
Improvisei com um suporte de ferro para floreiras: ele segura um grande prato retangular de jardineira, que, por sorte, coube certinho na parte inferior. Com isso, consigo puxá-lo do suporte como se fosse uma gaveta, para limpar as casquinhas de sementes antes de reabastecer o restaurante. A novidade foi recebi com euforia pelas verdinhas, como se vê neste sem-fim de asas e rabos.

Hoje, no meio do pegapracapá, vi uma cabecinha desmilinguida disputando as sementes no grito. Corri para avisar Omblogsman: "Temos uma maritaca-bebê!". Ainda sonado, ele checou o bicudo e disse, espantado, que já tinha visto um desses na nossa varanda. "Achei que era uma maritaca doente… Parece meio leprosa, né?".

De fato, a coisa parece ter saído andando de uma macumba: as asas já estão verdes, mas o peito e a cabeça ainda têm aquela plumagem indecisa de quem mal saiu do ovo. E, com uma olhada mais atenta, descobri que há outro bebê, digamos, mais bem acabado.

A julgar pelo ritmo da renovação, minha janela ficará cada dia mais verde…
O fotógrafo John Novis, do Greenpeace Internacional, passou semanas convivendo com a população da província Yunnan, na China, e registrou brilhantemente o modo de vida de agricultores que têm suas vidas intimamente ligadas ao cultivo do arroz. Nas plantações que cobrem vastas extensões de terra, garantindo o sustento de milhares de pessoas, John pode conferir uma rica cultura tradicional, que infelizmente está ameaçada por grandes corporações que querem tomar controle da produção do arroz.
Se o seu inglês está em dia, confira o slideshow aqui com a narração do próprio John, além de uma belíssima trilha sonora, para entender detalhes dessa bela homenagem aos agricultores - da China e de todo o mundo.
Por falar em alimentação, interessante a reportagem publicada esta semana no New York Times sobre como a indústria de alimentos induz os consumidores a comerem coisas mesmo contra a sua vontade. Segundo pesquisas do dr. David Kessler, ex-encarregado da Food and Drug Administration (FDA) - poderosa instituição americana que regula medicamentos e alimentos - e autor do livro “The End of Overeating: Taking Control of the Insatiable American Appetite” (O fim da comilança: controlando o insaciável apetite americano - tradução livre), a indústria de alimentos age mais ou menos como a indústria de cigarros.
Segundo o dr. Kessler, ao combinar gorduras, açúcar e sal de várias formas, os fabricantes de alimentos conseguiram atingir o sistema de recompensa do nosso cérebro, criando um feedback que estimula nosso desejo de comer e nos deixando cada vez mais com vontade, mesmo quando já estamos cheios.
No livro, o dr. Kessler admite: "Eu não estaria tão interessado no assunto de por que não resistimos à comida se eu mesmo não sofresse com isso. Eu perdi e ganhei peso várias vezes. Tenho ternos de todos os tamanhos."
A indústria de alimentos é tema também de um documentário que vem dando o que falar nos Estados Unidos. Food Inc. coloca em xeque muitos dos procedimentos dos fabricantes, meio que na linha de outros filmes como Super Size Me e Fast Food Nation, englobando não apenas questões de saúde ou alimentícias, mas também éticas, ambientais e políticas. Confira aqui o trailer de Food Inc.
É aquela velha história: para se alimentar bem, é preciso estar bem informado.

A usina nuclear fica perto da cidade de Smolensk e tem capacidade para gerar 3 megawatts. Ela foi construída em um período de 8 anos entre 1982 e 1990. A usina possuiria 4 reatores, mas graças
Ontem participei com o Greenpeace de uma atividade muito legal na Laje de Santos, a grande baleia de pedra no meio do mar. Uma grande celebração à vida, reunindo ambientalistas, mergulhadores, turistas, pesquisadores, autoridades do governo, o Arctic Sunrise, lanchas e até uma canoa havaiana. Áreas marinhas protegidas como o Parque Marinho Estadual da Laje de Santos são o caminho das pedras para salvar os oceanos. Temos menos de 1% deles protegidos de alguma forma, quando o razoável seria ter pelo menos 40% de reservas marinhas. Passei o final do dia de ontem e praticamente o dia inteiro
— O que é que você tanto fotografa aí no chão?
Dei uma risada quando ouvi o adolescente na bicicleta — em 15 minutos de cliques, ele era a terceira pessoa a me perguntar a mesma coisa. Expliquei que tinha visto uma mancha na parede e que tirava fotos dela. “De uma mancha?”, ele disse, já me tendo por louca. Sorri de novo. “Elas ficam lindas numa tela, sabia?” Ele deu de ombros e foi embora. Como os outros.
Meu amigo Cárcamo é perito em fazer esse tipo de coisa aparentemente estranha. Já o vi discutir com a faxineira porque ela jogou fora uma jaca podre que ele alimentou por meses: queria pintar uma natureza morta se inspirando nos tons da fruta em decomposição. Já vi aquarelas maravilhosas que ele produziu observando como a terra se infiltra pelas paredes e vai tingindo-as de limo.
Esse meu interesse nesses sinais do tempo é puramente estético. Gosto de fotografar a gana com que as samambainhas brotam de fendas e rachaduras, a renda branca a umidade deixa nas pedras, toda a paleta de verdes que tingem a ferrugem. Para mim, é como se a natureza deixasse claro que não é tão submissa assim à ação do homem e que, cedo ou tarde, cada carro, prédio e rua sucumbirá ao mato.
Ok, é um pouco assustador. Mas não deixa de ser lindo.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira