Escrevi recentemente sobre minha costureira, dona Rita, sem imaginar que costureira que costura é espécie em extinção. Pregar botões e zíperes, ok, fazer barra de calça, vá lá, mas criar roupas, assim, do nada, isso é coisa pra gente com muita imaginação.
É mesmo muito bom investir em uma costureira de bairro quando elas são sufocadas pelas grandes confecções e shoppings. Na prática, no entanto, a coisa requer um pouco de paciência. Como qualquer ação sustentável,
aliás.
Não espere chegar em uma dessas insípidas franquias de costura, com uma atendente que lança seu pedido no computador e outra que tira suas medidas e diz que tudo vai sair os olhos da cara e ficar pronto na semana que vem. Vai por mim, o ateliê da dona Rita não se parece em NADA com um lugar desses.
Para começar, o portãozinho que nunca fica trancado nem placa tem. Ao atravessar o corredor, chega-se a uma porta (sempre escancarada), de onde se tem uma visão parcial da ante-sala do inferno: rolos de linha emaranhada, retalhos pelo chão, pilhas de roupa que vão até o teto, araras envergadas de tantos cabides cheios de peças para ajustar, um radinho a pilha que pega duas rádios ao mesmo tempo, uma senhora no provador tentando driblar os alfinetes de um vestido, outra do lado de fora, reclamando de um serviço que não ficou pronto… Tudo isso junto e mais dona Rita com seu ar bonachão, mãos na cintura e uma fita métrica no pescoço, dando a risada mais gostosa do mundo.
Ter uma costureira sustentável é assim. Deixo as roupas lá e esqueço delas por uns bons dois meses, quando então ligo e sou informada de que elas ficarão prontas em vinte dias. Se pressiono, dona Rita ri e se sai com a máxima:Tô com muita costura, menina…". Mas nem ligo. Quando tudo fica pronto, está com a minha cara e feito no maior capricho. E, além de tudo, custa a metade do preço.
Amém, dona Rita!
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