Saramago está na área e eu perdi a oportunidade de fazer mais uma entrevista com um de meus ídolos - semana passada foi a vez do Fritjof Capra, que em breve enriquecerá um de meus posts, aguarde. Mas minha camarada Lúcia esteve na coletiva de imprensa que rolou com o escritor português e, melhor, conseguiu fazer uma pergunta que eu enviei. Simples: “O que é vida sustentável?”
Eis a resposta:
É emprego. É viver como sobrevivente. Ter consciência da precariedade dos bens, poupando, conservando, enfim assumindo a abordagem de sobreviventes. Deveríamos viver como sobreviventes, poupar, não desperdiçar, limpar terreno e ar, de modo que se possa viver.
Hoje temos a cultura do mais, em tempos de crise como este, as pessoas caem, a classe média perde sua condição. Os governos são responsáveis pelo que acontece - os ricos, os riquíssimos.
O Estado é inimigo, dizem quanto menos melhor, mas é o Estado que é chamado à responsabilidade para salvar o Citibank, a GM. E o Estado somos nós, nossos impostos.
Não há alternativa política, não há alternativa econômica. E vamos viver de remendos.
É sustentável desde que se tenha emprego.
Mais Saramago lá no Ladybug.
Em tempo: no próximo sábado (dia 29) é Dia de Nada Comprar, campanha mundial do pessoal da Adbusters que há 17 anos incentiva as pessoas a não se deixarem seduzir pelo canto da sereia do mercado. Vá à praia, ao parque, dar uma volta de bicicleta, leia um livro. Em tempos de crise financeira, até que não vai ser difícil deixar a carteira quietinha…
Se vc está pensando em fazer alguma atividade, performance ou protesto para marcar o dia, coloque na página wiki da campanha.
“Em primeiro lugar, queria agradecê-lo por ter escrito O Tao da Física. Assim que terminei de ler pensei que tinha que fazer isso e agora tenho a oportunidade. Obrigado, sr. Capra.” O deslumbramento do jovem que sentava imediatamente atrás de mim no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura da Paulista, era evidente e, por que não, comovente. Muitos dos que o aplaudiram provavelmente queriam fazer o mesmo e rolou uma identificação imediata. O rapaz foi aplaudido por uma gente sorridente, bonita, harmoniosa, em comunhão - entre si e com com Fritjof Capra, que deu palestra sobre seu livro A Ciência de Leonardo da Vinci (lançamento da editora Cultrix).
Eu logo me identifiquei e relaxei um pouco. Estava tenso por ter que entrevistar Capra para a revista e o site do Greenpeace e também por voltar à rua depois de tempos para exercitar como se deve o ofício de jornalista. Uma coisa influênciou na outra, mas na hora H, foi que foi. Dei até sorte, porque os outros dois jornalistas que compartilhariam comigo os escassos 30 minutos disponíveis para entrevista não apareceram. Pude gravar tranquilo minhas 7 perguntas sobre ecologia, meio ambiente, sustentabilidade, as quais ele respondeu sem rodeios e com firmeza, não deixando transparecer nenhum incômodo por falar de coisas que não eram bem a razão dele estar ali. Se bem que em termos. Capra é ecologista de longa data e Da Vinci, idem.
Ao contrário da trupe do bem que enfrentou chuva e engarrafamento para ouvi-lo falar, Capra é sisudo, circunspecto, um tanto quanto impaciente, mas sempre elegante e atencioso. Conheço bem o tipo, já tive chefe austríaco no Greenpeace. Me atendeu prontamente quando fui apresentado e respondeu com calma e prestatividade às minhas indagações feitas num inglês inseguro. Da mesma forma atendeu a uma dupla de ciclistas que, pouco antes da palestra começar, entregou a ele um favo de mel, e ouvi atentamente como fazia para degustar aquilo. “É colocar na boca e mastigar de leve como chiclete. Mas dá pra engulir, sem problema, é só cera”, explicou um deles. Tirou fotos com alguns, autografou dezenas de livros (com um simples “Para fulano”, mas enfim…) para a legião de estudantes, artistas, leitores casuais, empresários, escritores e até uma policial militar que lotaram o teatro.
Em uma hora de palestra, com uma apresentação de slides trazendo citações e desenhos de Leonardo da Vinci, o escritor de 69 anos revelou aspectos ambientalistas no artista toscano que eu sinceramente desconhecia solenemente. O próprio Capra disse ter se surpreendido ao achar a seguinte frase nos alfarrábios consultados :
As virtudes da grama, das pedras e das árvores não se encontram em seu ser porque os seres humanos as conhecem… A grama é nobre em si própria sem a ajuda de linguagens ou letras humanas.
É bom observar que as cerca de 6 mil páginas com anotações e desenhos do gênio renascentista que sobreviveram cerca de 500 anos até os dias de hoje estavam escritas em italiano da época e da direita para a esquerda, como os árabes fazem - Da Vinci era canhoto e inovou até na hora de por seus pensamentos no papel. Imagina a dificuldade para quem tem que destrinchar os textos hoje.
Enfim, o que chamou a atenção de Capra foi que Da Vinci antecipou em séculos o que se chama hoje de deep ecology: todos os seres vivos fazem parte de uma grande teia de vida, vivemos numa imensa gaia, e nenhuma espécie é mais importante do que outra. A ciência deve andar em harmonia com a natureza, não dominá-la.
Para Fritjof Capra, físico teórico e escritor que há anos promove a educação ecológica, principalmente para crianças e adolescentes, foi um achado e tanto. A investigação sobre o mestre italiano lhe mostrou que os desenhos dele eram complexos diagramas científicos, porque para estudar a natureza, era preciso desenhá-la; e para desenhá-la, era preciso estudá-la. Combinou ciência, estética e ética como ninguém, quase sempre orientada por uma filosofia ecológica lato sensu. Dá o que pensar saber que Da Vinci ficou obscuro por séculos. Que seja fonte de inspiração nesses novos tempos que se avizinham, com mudanças importantes acontecendo no mundo. Obama na Casa Branca, sustentabilidade e ecologia na ordem do dia, todo mundo pensando no que pode fazer para contribuir.
As perguntas da platéia, ao final da palestra, refletiram essa consciência coletiva de que algo precisa ser feito para mudar o estado das coisas e Capra acabou discutindo ali muito do que falou em nossa entrevista: Obama, o papel da sociedade civil na consolidação desse outro mundo possível, as chances de termos um mundo realmente sustentável. Publico aqui assim que sair a revista do Greenpeace, valeu?
Enquanto isso, curta uma das aventuras do Riuston, o valente entregador da livraria Cultura. O blog é divertido também. Descobri navegando pela internet, pra juntar essa coleção de links deste blog…

Era isso que eu procurei por tanto tempo. O livro Carfree Cities traz idéias muito interessantes de como seriam as cidades sem os carros e os problemas causados por eles. O autor J.H. Crawford acredita que as nações industrializadas cometeram um grande erro ao escolher o automóvel como forma de mobilidade urbana causando diversos problemas tanto ambientais, sociais quanto estéticos nas cidades.
O site Carfree trás ainda uma infinidade de informações e projetos fantásticos desde a topologia da cidade e meios de locomoção a grandes distantes até desenhos de como funcionariam os bairros e quadras de cada cidade.

Um dos designs chamado de Six-lobe city design possui estimativas de número de habitantes, quantidade de área verde preservada, número de bairros e até o tempo máximo previsto para a locomoção de uma pessoa de uma cidade para outra. Neste caso o tempo máximo seria de apenas 35 minutos contabilizando tempo de caminhada até uma estação de metrô/trem, tempo de espera, deslocamento, troca de plataforma e caminhada até o destino. Ainda que bastante utópico, a concepção e o estudo de cidades possíveis são uma ótima reflexão para percebermos a situação de nossas cidades.

Brasília, que é uma cidade planejada, foi criada inteiramente pensando no carro como principal meio de transporte e por isso temos diversos problemas com transporte público, falta de ciclovias, trânsito em massa entre outros. O livro Carfree Cities está à venda por US$16,15 na Amazon. Dica do amigo Xandolino.


Estratégia do choque. Se o discurso para a adoção de boas práticas para muitos soa mal para muitos ouvidos que tal o contrário? É o que promete o livro dos ambientalistas Mark Townsend e David Glick no livro recém lançado “50 Ways to F**k the Planet“.
O pessoal do SmartPlanet conseguiu 10 cópias do livro e está sorteando no site deles. Basta entrar no site e responder uma pergunta. O livro “50 Ways to F**k the Planet” está à venda por £12,99.
Está quase se esgotando o prazo para quem quer participar do Concurso Literário de Crônicas Astra, com o tema Meio Ambeinte. Para aqueles que gostam de escrever e estão preocupados com os problemas ambientais que o Planeta enfrenta, esta é uma oportunidade de exercitar seu talento e, ao mesmo tempo, ver seu trabalho publicado em um livro. Basta criar uma “história” com uma visão pessoal da situação atual do meio ambiente, de forma simples e espontânea , baseada no cotidiano relacionado ao meio ambiente.
As crônicas deverão ser inéditas e escritas em língua portuguesa.Os cinco primeiros classificados serão contemplados com prêmios de R$ 5.000,00 a R$ 500,00 e mais um laptop e impressora para os cinco primeiros ganhadores.Os vinte primeiros classificados terão suas obras editadas em um livro com tiragem de quinhentos exemplares e cada classificado receberá dez livros, sendo os demais livros distribuídos a critério da Astra.
As inscrições irão até o dia 22 de agosto. Os textos deverão ser enviados exclusivamente via Internet, no endereço: www.concursodecronicasastra.com.br. Então, o que está esperando? Vai lá e faça a sua parte!
Lula, Jorge Bittar, Carlos Minc e Gabeira em protesto contra Angra 3 realizado em 1989. Bons tempos em que esse pessoal estava do lado verde da força.
O Ibama concedeu quarta-feira o licenciamento ambiental prévio à usina nuclear Angra 3, não sem antes condicionar a obra a 65 exigências - de cuidar de parques a obras de saneamento básico e solução definitiva para o armazenamento do lixo nuclear. Dá pra se ter uma idéia do pepino ambiental que Angra 3 representa só pela gigantesca lista de compensações ambientais. Mesmo que todas sejam atendidas - e não serão -, nada justifica a construção da usina.
Energeticamente o Brasil tem imenso potencial hídrico, solar e eólico a ser explorado. Só os ventos do Nordeste oferecem 75 gigawatts de energia ao país. O que me leva a fazer uma continha básica: levando-se em conta que Angra 3 tem potencial para 1.350 megawatts (1 gigawatt = 1.000 megawatts, só pra constar) e custo estimado de R$ 8 bilhões para ser construída, seriam necessárias 56 usinas iguais à ela, ao incrível preço de R$ 450 bilhões, para gerar esse mesmo total de energia com reatores nucleares. E ainda têm a cara-de-pau de dizer que as fontes renováveis de energia são caras…
E nessa conta aí não estou incluido o alto custo de descomissionamento das usinas nucleares, ou seja, o dinheiro que se gasta para desligar, desmontar e descontaminar as usinas e seus equipamentos ao final de sua vida útil, que é em média de 50 anos (aqui e em todo o mundo), além de armazenar adequadamente o lixo nuclear de baixa, média e alta radioatividade - o que nenhum país do mundo ainda conseguir saber como fazer. Estima-se que na França, país tido como modelo para os defensores da energia nuclear, esse custo possa chegar a US$ 90 bilhões!
Existem hoje no planeta 440 usinas nuclears, boa parte nos EUA e França. Dezenas delas serão fechadas em no máximo 10 anos. Dá pra se ter uma idéia do que isso vai custar, não? E, pasmén: esse dinheirama toda nunca é incluída na conta do que se gasta numa usina nuclear. E sabe quem paga a conta? eu, vc, todo mundo, porque a indústria nuclear é subsidiada pelos governos.
É aí que entra o X da questão: por que os governos subsidiam tanto a indústria nuclear, que é cara pra cacete e altamente perigosa? Por questões militares. A mesma tecnologia nuclear que gera energia, gera a bomba. Países que mais têm usinas são também os que mais investem em arsenal atômico - França, EUA, Rússia. No Brasil, o setor nuclear também está intimamente ligado aos militares. O presidente da Eletronuclear é o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, aquele mesmo que tocava um programa nuclear militar paralelo na década de 1990 e queria testar um artefato nuclear na Serra do Cachimbo, no Pará.
Aí vem o outro e diz: “Ah, mas seria preciso rasgar a Constituição brasileira para o Brasil desenvolver armas nucleares, porque a Carta Magna diz que o programa nuclear brasileiro tem que ser pacífico.” Ora, não é preciso rasgar a Constituição, basta reformá-la, como tantas vezes se fez. E há gente da pesada que defende não só isso como também a saída do Brasil do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, como fizeram a Índia e o Paquistão, por exemplo. Gente como o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Benedito Leonel, e o secretário-geral do Itamaray, Samuel Pinheiro Guimarães.
Em seu livro Desafios do Brasil na Era dos Gigantes (editora Contraponto, 2006), o embaixador Guimarães é claro: “A nação deveria se engajar na eliminação da vulnerabilidade militar que decorre da adesão do Brasil, em situação de inferioridade, a acordos de não-proliferação de armas de destruição em massa.”
E teria o Brasil razões para tamanha loucura? Geopoliticamente, sim. O país anunciou recentemente a descoberta de mega-campos de petróleo e, na seqüência, os Estados Unidos anunciaram a recriação da Quarta Frota Naval, para atuar no Atlântico Sul. Uma coisa puxa a outra e há setores militares no Brasil considerando que o país tem que estar pronto para o que der e vier. Lá vem bomba.

O livro Apocalipse Motorizado - A Tirania do Automóvel em um Mundo Poluído pode ser baixado gratuitamente no site da editora Conrad até o dia 30 de abril.
O livro traz uma coletânea de textos que discutem a dependência que nossa sociedade tem com os carros e os efeitos colaterais disso - poluição, dependência do petróleo, expropriação do espaço público comum e a exclusão social. Num dos capítulos, são propostas ações práticas para diminuir essa dependência - andar mais a pé e de bicicleta, usar transporte público, fazer passeios mais próximos de casa, e por aí vai.
Comecei a ler esta semana um livro de contos que há anos ronda minha mesinha de cabeceira - Contos Cruéis, do escritor francês Villiers de l’Isle-Adam, conhecido por suas histórias de mistério/horror com nuances românticas e fantásticas. O primeiro conto do livro é Vera: um aristocrata sofre a perda da mulher com quem havia casado poucos meses antes e, de tanto pensar nela, consegue sua ressurreição fantasmagórica. É um tema deveras batido, mas que ganha beleza sem igual com Villiers, por sua delicadeza em tratar o tema. Achei a versão original do conto em francês e uma em inglês; nada em português.

O leitor Diogo pediu, eu pesquisei e achei o livro Introdução à Permacultura, de Bill Mollison (já esgotado) para download no blog Viver Sustentável. Infelizmente só encontrei na versão original, em inglês. Se alguém souber onde tem o livro traduzido, por favor avise!
De quebra, achei outro livro interessante sobre o tema: Os Fundamentos da Permacultura - Um resumo dos conceitos