Primeiro, foram uns miados baixos e insistentes. Em poucos minutos, passaram para longos miados barítonos, tão graves que algum vizinho deve ter pensado que eu estava esquartejando meus gatos. E eu ainda nem tinha chegado ao box.
Assim que ouviu o chuveiro ligado, Grafite fincou dez unhas no batente da porta do banheiro. Parecia coisa de desenho animado: eu puxando de um lado e o bicho grudado na porta. Puxei a pele do cangote para manobrar as unhas afiadas e consegui desvencilhá-lo do batente, mas não rápido o bastante para levá-lo até o box: agora, ele se agarrava à torneira da pia, derrubando tudo o que estava em cima do gabinete. E ainda desceu um tom na escala de miados, para mostrar que não estava de brincadeira.
Dez minutos depois, consegui enfiar a jaguatirica na água. Ensopado, um gato se reduz a duas orelhas, um punhado de bigodes e dois olhos negros ameaçadores. A cantoria continuou enquanto eu o ensaboava. Oto conseguiu abrir a porta do banheiro para conferir se eu estava tentando fazer sushi do irmão dele, o que só piorou as coisas, porque passaram a ser dois miando, um dentro do chuveiro, outro do lado de fora.
Quando puxei a toalha para secar o Grafite, contabilizava cinco arranhões e um furo no cotovelo, que sangrava bastante. E é claro que bastou verem o irmão vivo para os outros dois sumirem de vista. A Lua se escondeu debaixo das cadeiras, na mesa de jantar, e o Oto tentou em vão se enfiar atrás das plantas, o rabo marrom para fora, dando a maior bandeira.
E, então, começou tudo de novo.
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